
MANEJO DA ACIDEZ
DO SOLO E A PRÁTICA DA CALAGEM
José A. Quaggio. Acidez
e calagem em solos tropicais, Instituto Agronômico. Campinas-SP
O sucesso
do manejo da acidez dos solos não depende somente do conhecimento
básico sobre a teoria da acidez e de características dos corretivos.
A prática da calagem, que envolve o conjunto de operações
ligadas à distribuição e incorporação do
calcário, são igualmente importantes. De nada adianta a recomendação
de calagem ter sido feita com a melhor base teórica possível
se o corretivo for aplicado em dose incorreta, devido ao equipamento de aplicação
ser impróprio ou estar mal regulado. Portanto, a uniformidade de aplicação,
o grau de mistura das partículas de calcário com o solo e a
profundidade de incorporação são fundamentais ao sucesso
da calagem.
Como regra básica pode-se dizer que quanto
mais os corretivos são misturados e incorporados profundamente ao solo,
melhor. Com isso, a reação do calcário é mais
rápida, pois os produtos da reação do correti vos são
rapidamente consumidos pela acidez do solo e a correção de camadas
do subsolo permite o enraizamento mais profundo das plantas, o que propicia
melhor produtividade e estabilidade de produção das lavouras.
Entretanto, nos últimos anos, vem aumentando
o interesse dos agricultores brasileiros por sistemas de manejo de solo mais
conservacionistas como o preparo reduzido e, principalmente, o plantio direto.
Esses sistemas propiciam o menor revolvimento possível do solo e, assim,
afetam tão diretamente a prática da calagem ao ponto de o calcário
ser aplicado à superfície do solo, sem incorporação,
no caso do sistema de plantio direto.
Este capítulo apresenta uma visão geral sobre tais temas, com
ênfase aos pontos mais relevantes à produtividade agrícola.
Distribuição do calcário
A distribuição do corretivo de
acidez deve ser a mais uniforme possível, em qualquer sistema de manejo
do solo. É fácil observar quando se distribui o calcário
de maneira desuniforme, em solos mais ácidos, pela irregularidade no
crescimento das plantas. Nos solos com menor grau de acidez, há efeito
negativo na produtividade, porém de percepção mais difícil.
A distribuição uniforme do calcário
depende da qualidade e regulagem dos equipamentos de aplicação.
É necessário que o equipamento esteja corretamente dimensionado
ao tamanho da propriedade e também que o agricultor conheça
suas limitações para minimizar a heterogeneidade de aplicação.
Existem diferentes modelos de distribuidores de calcário no mercado
brasileiro, cujos detalhes poderão ser obtidos nos textos de Mialhe
(1986) e Dallmeyer (1986).
Aspecto importante é o operador dominar
bem o mecanismo dosador, e a técnica de conferência de regulagem
do equipamento, para poder ajustar a dose recomendada para cada lote de compra
de calcário. Isso é neces sário porque os produtos têm
densidade de partículas distintas e a variação no teor
de umidade é muito grande. Tudo isso interfere na dose aplicada. É
importante também, conhecer a faixa de distribuição ou
o perfil transversal do equipamento. Ele descreve a quantidade de calcário
que o equipamento distribui, em função da distância do
eixo da máquina, no sentido transversal ao deslocamento do trator.
Com exceção ao equipamento do tipo cocho, que utiliza a força
da gravidade para distribuir o calcário, em linhas na extensão
da largura da máquina, os demais distribuidores têm dispositivos
para lançarem as partículas de calcário mais distantes,
conseguindo-se faixas mais largas e, assim, maior rendimento de aplicação.
Com isso, há maior concentração
de partículas próximas do eixo do distribuidor em comparação
com as extremidades da faixa de aplicação. Portanto, torna-se
necessária a sobreposição de faixas de aplicação
para se conseguir melhor uniformidade. Os catálogos dos equipamentos
geralmente prometem faixas muito largas de aplicação, com até
14 m, das quais resultam em grande desuniformidade de doses aplicadas. É
fundamental que o agricultor não ultrapasse 8 m de faixa de aplicação
para assim conseguir melhor uniformidade.
Cuidado adicional deve ser tomado com aplicadores
do tipo rotativo que di spõem de apenas um rotor de distribuição.
Eles têm perfil transversal assimétrico que aumenta ainda mais
a desuniforme de distribuição das partículas.
Aplicação localizada
de calcário
Houve interesse no passado de alguns agricultores
brasileiros, principalmente aqueles arrendatários de terra, no sentido
de reduzir os custos com a calagem, mediante a aplicação de
pequenas doses de calcário, finamente moído, no sulco de plantio.
Algumas máquinas de plantio chegaram a ser produzidas com três
reservatórios. Na mesma época, trabalhos de pesquisa foram realizados
e mostraram que tal prática era pouco eficiente, sobretudo em solos
com acidez elevada (Ben et al., 1981). Observando-se
os dados do quadro nota-se que houve resposta à calagem na linha de
plantio apenas em áreas que não receberam calcário a
lanço. Além disso, nessa condição, a média
de produtividade se manteve baixa no período de quatro anos. Não
existe também efeito adicional para a aplicação de calcário
em linha em solos que receberam calagem em doses adequadas, na área
total (Ben et al., 1983).
Outro trabalho com objetivos semelhantes foi
desenvolvido por Nakayama et al. (1984) em solo de cerrado do Estado do Mato
Grosso do Sul, cujos resultados foram reinterpretados e mostrados no quadro
5.2. À primeira vista, os aumentos de produção de soja
para a aplicação de calcário no sulco de plantio são
vantajosos, pois chegam a quase 3.000 kg.ha (hectare elevado a -1) de soja,
num período de quatro colheitas. Entretanto, a análise econômica
mostra que os ganhos são pequenos, principalmente nos dois primeiros
anos, os quais mais interessam aos arrendatários de terra, dado o período
geralmente curto do arrendamento. Nos demais anos, as doses de calcário
acumulam-se no solo e como o sulco de plantio muda de posição
todo ano, resultam em uma calagem em área total, porém com menor
relação custo/beneficio. Além disso, a calagem na linha
torna a operação de plantio mais complexa e com rendimento muito
menor devido à necessidade de reabastecimento freqüente das máquinas.
Outra forma de localização de
calcário também ocorre nas culturas perenes, em que a aplicação
dos fertilizantes é feita em faixas laterais próximas 'as plantas,
provocando maior acidificação do solo. Quando isso ocorre, os
agricultores poderão fazer a calagem também de forma localizada
de modo a reduzir a heterogeneidade do solo e economizar com calcário.
Para tanto, alguns equipamentos possuem dispositivos próprios para
essa aplicação. Na prática tem-se observado que é
possível reduzir até 30%, por área, a dose de calcário.
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